Caso Clínico #02 – Síndrome de Brugada

DEZEMBRO DE 2019

Esse é um caso cardiológico de ocorrência rara. Por coincidência atendi o paciente logo após ter escrito dois artigos sobre a importância do Teste Ergométrico.

E também por coincidência, escrevi a pouco tempo, o caso do Soldado Ryan que teve uma parada cardíaca ou morte súbita revertida durante um treino, e enumerei no artigo as diversas causas cardiológicas de morte súbita.

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Vamos ao caso:

No intuito de preservar a identidade do paciente vou lhe escolher um nome aleatório: Henrique Braga, 24 anos.

– Aqui estão os detalhes da consulta –

Queixa principal:

Refere que nunca foi no cardiologista e gostaria de fazer exames gerais (sic)

HISTÓRIA CLÍNICA:

Refere que há 02 semanas estava no trabalho pela manhã e pressão arterial caiu, quando aferiu a pressão estava em 100×60, teve uma dor de cabeça forte associado a tontura e sensação de desmaio.

Foi ao pronto-atendimento e refere que o plantonista do Hospital disse que ele estava com crise de enxaqueca.  No entanto o próprio paciente refere que nunca teve enxaqueca antes e achou estranho. Depois disso, resolveu marcar consulta com cardiologista para realizar exames gerais.

ADENDO:

  • NEGA PROBLEMAS DE SAÚDE
  • NEGA TABAGISMO ATUAL
  • NEGA USO DE MEDICAMENTOS CRÔNICOS
  • NEGA ALERGIAS A REMÉDIOS OU ALIMENTOS

Etilismo:

  • Regular

Observações em relação ao hábito de bebidas alcoólicas:

Bebe nos finais de semana – Refere que bebe cerca de 07 latas de cerveja no sábado e no domingo.

Cirurgias prévias:

Retirada da adenoide

ATIVIDADE FÍSICA ou EXERCÍCIO FÍSICO:

  • Regularmente

Tipo de exercício físico

  • Musculação

Frequência de atividade física e duração do exercício aeróbico por dia de exercício:

  • 6 vezes na semana
  • 10 min

FAZ EXERCÍCIOS INTENSOS

Considera condicionamento físico:

  • Regular

Adicional:

  • Nega dores no peito, falta de ar em excesso, inchaço nas pernas, palpitações, perda de consciência
  • Nunca fez ECG

Mãe:

Colesterol um pouco alterado

Avôs:

Câncer de fígado e faleceu de Insuficiência Cardíaca aos 86 anos

Complemento familiares:

  • Nega outros problemas de saúde nos familiares

EXAME FÍSICO

Bom estado geral, corado, hidratado, eupneico, ausculta pulmonar com murmúrio vesicular presente sem ruídos adventícios, ausculta cardiológica com 02 bulhas regulares sem sopros, abdome normotenso, indolor, fígado e baço não palpáveis, membros inferiores sem edemas.

Pressão arterial sistólica: 110 mmHg

Pressão arterial diastólica: 52 mmHg

Frequência cardíaca: 58 batimentos por minuto

Cálculo IMC

  • IMC: 24,212
  • Peso: 75,000 kg
  • Altura: 176,000

Resumo do caso clínico:

Paciente jovem, que nunca tinha feito um eletrocardiograma, com queixas inespecíficas, veio em consulta querendo fazer exames gerais e cardiológicos.

Eletrocardiograma:

Foi feito na hora o eletrocardiograma com essa imagem:

Brugada somente imagem

Conduta:

Solicitei os exames gerais de rotina.

Confesso que fiquei um pouco cismado com esse eletrocardiograma.

Paciente tinha tido uma tontura com sensação de desmaio, algo meio inespecífico, tinha hábito de fazer exercícios intensos na academia e referiu ter tido queda de pressão na hora da tontura.

Ou seja, nenhum diagnóstico bem definido, resolvi prosseguir investigação, solicitei um Teste Ergométrico e por sorte, apesar de estarmos há 30 dias com a agenda lotada, houve um paciente que precisou remarcar seu exame e liberou uma vaga logo no dia seguinte para o Henrique Braga (nome fictício).

Como foi o Teste Ergométrico?

Eis que surge, no período pós esforço ou seja, na recuperação o seguinte traçado de eletrocardiograma durante a realização do Teste Ergométrico.

E agora, algum colega médico, pensaria em algum diagnóstico depois desse eletrocardiograma?

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A cardiologista que realizou o Teste Ergométrico conseguiu detectar essa alteração do eletrocardiograma na fase de recuperação. Esse caso serve como um reforço sobre a importância de fazer uma monitorização adequada após o esforço físico em um teste de esteira.

Ao detectar tal alteração, o eletrocardiograma foi visualizado por um especialista em arritmias cardíacas que sugeriu a hipótese de Síndrome de Brugada.

Doutor quer dizer que o paciente tem Síndrome de Brugada?

Não, ainda não podemos afirmar que tenha síndrome de Brugada. Por enquanto tem um eletrocardiograma com padrão de Brugada desmascarado no Teste de Esforço. No entanto precisamos ficar atentos e prosseguir a investigação. Pode ser que tenha ou pode ser que desenvolva a Síndrome de Brugada, porém por enquanto foi feito apenas uma consulta e ainda fará exames complementares para melhor compreendermos o caso. Também vamos pesquisar na sua família, casos de desmaios, morte súbita e alterações no eletrocardiograma de parentes próximos.

Mas afinal o que é a Síndrome de Brugada?

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A Síndrome de Brugada é uma doença genética autossômica dominante com expressão variável, caracterizada por anormalidades no eletrocardiograma levando a um aumento do risco de taquicardias ventriculares e morte súbita.

A Síndrome de Brugada é uma das causas de morte súbita em coração estruturalmente normal.

A manifestação mais frequente da Síndrome de Brugada são desmaios resultantes de taquiarritmias ventriculares.

A morte súbita pode ser a manifestação inicial da Síndrome de Brugada em cerca de um terço dos pacientes. Os eventos ocorrem normalmente entre os 22 anos até os 65 anos e são mais comuns a noite do que durante o dia e mais comuns durante o sono.

Diferente dos pacientes que sofrem infarto e costumam ter fibrilação ventricular, os indivíduos com Síndrome de Brugada apresentam taquicardia ventricular, incluindo a taquicardia ventricular polimórfica (Torsades de Pointes).

Normalmente a morte súbita não é relacionada ao exercício físico.

Muitas vezes a taquicardia ventricular em que ocorre a morte súbita é precedida por extrassístoles frequentes.

Existem dois tipos de padrão de Síndrome de Brugada:

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Sindrome de Brugada Tipo 1 e Tipo 2.JPG
Morfologia de Brugada Tipo 1 e Tipo 2

Como fica o paciente em questão?

Conforme já disse, ainda investigará se tem ou não tem, a Síndrome de Brugada, um diagnóstico desafiador. Nesse caso, encaminhei para seguimento com Dr. Antônio Vitor, o qual tem grande conhecimento sobre Síndrome de Brugada, já acompanhou diversos casos e inclusive participou de reuniões clínicas cardiológicas com o próprio Josep Brugada (médico espanhol que deu origem ao nome da doença em questão).

Com certeza irei acompanhar o paciente em conjunto, para realmente descobrir se esse caso se trata da Síndrome de Brugada, para podermos oferecer um tratamento adequado dependendo do diagnóstico e da evolução do quadro.

Qualquer novidade vou informando por aqui.

Atualização do caso

Primeiro descrevi o caso em Dezembro de 2019. Recentemente (setembro de 2020) tivemos um congresso internacional de arritmias cardíacas com o próprio Joseph Brugada inaugurando o congresso e participação Dr. Antônio Vitor. Dessa forma, me lembrei desse paciente e perguntei se estava bem. De fato, no seguimento ao longo do ano foi constatado a Síndrome de Brugada e já recebeu o dispositivo (CDI) para evitar que tenha uma morte súbita.

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2 comentários sobre “Caso Clínico #02 – Síndrome de Brugada

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